segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Discurso de Posse Academia Brasileira de Letras - paulo coelho

28 de Outubro 2002
SIC TRANSIT GLORIA MUNDI. Dessa maneira, São Paulo define a condição humana em uma de suas epístolas: a glória do mundo é transitória. E, mesmo sabendo disso, o homem sempre parte em busca do reconhecimento pelo seu trabalho.
Por quê? Um dos maiores poetas brasileiros, Vinícius de Moraes, diz em uma de suas letras de música:
“E no entanto é preciso cantar
mais que nunca é preciso cantar.”
Vinícius de Moraes é brilhante nestas frases. Lembrando Gertrud Stein, no seu poema “Uma rosa é uma rosa, é uma rosa”, apenas diz que é preciso cantar. Não dá explicações, não justifica, não usa metáforas. Quando me candidatei a esta Cadeira, ao cumprir o ritual de entrar em contato com os membros da Casa de Machado de Assis, ouvi do acadêmico Josué Montello algo semelhante. Disse-me ele: “Todo homem tem o dever de seguir a estrada que passa pela sua aldeia.”
Por quê?
O que existe nessa estrada?
Que força é essa que nos empurra para longe do conforto daquilo que é familiar, e nos faz enfrentar desafios, mesmo sabendo que a glória do mundo é transitória?
Creio que esse impulso se chama: a busca do sentido da vida. Por muitos anos procurei nos livros, na arte, na ciência, nos perigosos ou confortáveis caminhos que percorri uma resposta definitiva para essa pergunta. Encontrei muitas, algumas que me convenceram por anos, outras que não resistiram a um só dia de análise; entretanto, nenhuma delas foi suficientemente forte para que agora eu pudesse dizer:
o sentido da vida é este.
Hoje estou convencido que tal resposta jamais nos será confiada nesta existência, embora, no final, no momento em que estivermos de novo diante do Criador, compreenderemos cada oportunidade que nos foi oferecida – e então aceita ou rejeitada.
Em um sermão de 1890, o pastor Henry Drummond fala desse encontro com o Criador. Diz ele:
“Neste momento, a grande pergunta do ser humano não será: “Como eu vivi?”
Será, isto sim: “Como amei?”
O teste final de toda busca é a dimensão de nosso Amor. Não será levado em conta o que fizemos, em que acreditamos, o que conseguimos.
Nada disso nos será cobrado, mas sim nossa maneira de amar o próximo. Os erros que cometemos nem sequer serão lembrados. Não seremos julgados pelo mal que fizemos, mas pelo bem que deixamos de fazer. Pois manter o Amor trancado dentro de si é ir contra o espírito de Deus, é a prova de que nunca O conhecemos, de que Ele nos amou em vão.”
Lendo a vida e obra daqueles que, antes de mim, ocuparam a Cadeira 21, independentemente de acreditarem ou não naquele encontro com o Criador, este é o primeiro elemento mais presente: amor. Todos buscaram um sentido para suas vidas, mas, enquanto o procuravam, souberam transformar seus passos em manifestações de amor ao próximo. E aí o amor é entendido como algo mais amplo do que o simples ato de gostar............
(Veja este discurso na íntegra no site: http://livros-sygurd.blogspot.com/)

2 comentários:

Anônimo disse...

Postagem muito boa e oportuna.
O Paulo Coelho é um sujeito vitorioso e bem-sucedido num país em que o sucesso pessoal é visto quase como uma ofensa ou algo condenável em si mesmo (o Tom Jobim falava alguma coisa desse teor, lembrando que é usual entre nós atribuir ao fracasso ou ao insucesso pessoal uma aura de virtude ou superioridade moral, contraposta ao êxito individual tido por anti-ético ou nefasto; execramos Pelé e exaltamos Garrincha).
Além disso, o Paulo Coelho é, a despeito das críticas, um autor no mínimo honesto, que não vende ilusões ou bulas de felicidade e reuniu em torno de si uma legião de leitores com quem partilha uma experiência de vida, uma tentativa de Verdade e um esforço de Sentido, em meio ao atropelo do mundo e à angústia da existência. Vale lê-lo, portanto.

Unknown disse...

Como disse João, ele é um autor que vendeu quase 65 milhões de livros, traduzidos para 57 idiomas. Se esta marca não traduz que sua leitura tem algo de sifgnificativo para as pessoas, então ao invés de um bom escritor, o mundo está repleto de bestas alfabetizadas que perdem tempo com leituras fáceis, para incultos e ignorantes que o enriquecem mais. Creio que o senso crítico das pessoas precisa ser avaliado sem o preconceito classificatório entre o cult e o over.